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quinta-feira, 7 de abril de 2011

A GENTE SE ACOSTUMA

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto. 
A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. 
A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. 
A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto. 
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.
A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.  



Por : Marina Colassanti

domingo, 13 de março de 2011

Solidão


Às vezes é bom ficar sozinho.
Porque o silêncio faz com que você consiga ouvir seus pensamentos.
E nesses tempos tão loucos, tão movimentados, tão sem parada pra nada ficar sozinho é quase raro.
Você quase nunca está .
Fique em uma calçada e estará acompanhado de incontáveis buzinas escancaradas.
Aconchegue-se no sofá e ouvirá sons de Televisões, radios escapando pelos vãos da janela para dentro de sua casa.
Sente-se em uma cadeira de escritório e concentre-se. Ouvirá o teclado dizer a você ‘tec, tec, tec…
E então, você nunca consegue ficar com o silêncio, porque algo sempre vem tomar o lugar dele!
Na realidade, o silêncio nunca vai existir, porque quando ‘encontrá-lo’ você vai estar sempre ouvindo o seu subconsciente.
E esse é um dos problemas do descontrole das pessoas hoje, é que elas não se preocupam em ter esse tempo consigo, não se preocupam em parar pra pensar como está a vida, as pessoas que estão ao seu redor, as oportunidades e pelo que vale a pena lutar.
Sendo assim, elas saem pra um caminho qualquer, que mal sabem por onde andar, atirando pra qualquer lado na contramão, formando esse imenso universo louco de poeira que se encontra hoje!

domingo, 6 de março de 2011

Evitar o inevitável



Humano...

Um ser tão... humano
Talvez sua própria forma de denominação o descreva dessa forma
Sempre evitando aquilo que tanto quer
Vive querendo tudo
E ao mesmo tempo foge do que ele mesmo construiu
Muitas vezes foge para dentro de si mesmo
Tentando achar algo que o conforte
Algo que o prepare para aquilo que ele mesmo um dia quis
Mas que agora tem medo...

Medo...

Uma ato que é por muitos confundido com coragem
Herói é aquele que aceita seus próprios medos

Covarde é aquele que ignora seus medos e aflições

Com tantas imperfeições como pode o ser humano ser tão perfeito
É uma balança imcompreensível
Algo sem lógica
Algo sem compreensão
Algo tão... Humano